Natal: convite à boa vontade

NATAL: A simbologia do nascimento do “príncipe da paz” é um convite à humanidade para deixar nascer um mundo pacífico

O Natal chegou, trazendo a sensação (sempre recorrente nessa época) de se roçar o Eterno. É consoladora a ideia de que o “Incorpóreo” e “Ilimitado” entrou no Tempo e tomou um corpo e assumiu a condição limitada para, assim, compartilhar de nossa vida atribulada, num ato de pura gratuidade amorosa. Isso quer dizer, no mínimo, que esta vida vale a pena ser vivida, pois há um significado embutido nela. E datas, como a de hoje, ajudam-nos a encontrá-lo.

Não existe Natal sem a referência aos elementos simbólicos do ouro, incenso e mirra, ofertados ao “divino Infante” que habita em nós, como a dizer que meios materiais são também dignos de usufruto, sempre quando utilizados em favor do crescimento do ser, e não para abafá-lo. Pois, o ter deve servir ao ser. Talvez seja essa uma das mais fortes mensagens do Natal.

A dimensão transcendental desta noite sagrada vem acompanhada da sede de partilha, conviviabilidade e comunhão. Um Natal desprovido desses elementos transforma-se na mais solitária das noites. Na verdade, além de suscitar em alguém a necessidade de aconchego, de estar junto aos seus, o Natal costuma provocar, no próprio indivíduo, a nostalgia de si mesmo, isto é, da outra banda (eterna e infinita) de nós mesmos, quando eventualmente desgarrada, para que possamos nos reunificar, voltando a ser um com o “Um”. Quando isso falta, há incompletude no ser.

Nesta noite, até ausências definitivas tornam-se presenciais ao serem tocadas pela dimensão não espacial dos afetos. Basta estar unido ao ausente pelo mesmo diapasão vibratório amoroso. Pelo menos, é consolador imaginar isso. Afinal, no Natal, devem ser suspensas quaisquer restrições à imaginação.

Sobretudo, não se deve esquecer a solidariedade para com os excluídos, de toda ordem, já que o Cristianismo é uma fé encarnada, e o cristão não pode deixar de ter compromisso com as dimensões humana e social.

Não é preciso, contudo, ser crente para se deixar tocar pela magia do Natal. Basta ter o coração aberto. A simbologia do nascimento do “Príncipe da Paz” é um convite à humanidade para deixar nascer em si mesma um mundo justo e pacífico. Em favor disso, deve concorrer o estreitamento dos laços entre os homens de boa vontade, sob as asas do Eterno. Essa foi a concitação do coro angélico que maravilhou os pastores nas cercanias de Belém: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Feliz Natal.

Fonte: Editorial Jornal O Povo, Fortaleza, 24 de dezembro de 2016.