Dom José Antonio: um bispo de ação e pouco barulho

Foto: Joca Deus é Pai

Foto: Joca Deus é Pai – Arquidioc. de Fortaleza

Talhado na inspiração do pai agricultor, que espalhava sementes pelos caminhos, e no sentido do coletivo, o Arcebispo de Fortaleza celebra 25 anos de ordenação episcopal

Dom José Antonio Aparecido Tosi Marques procura seguir o que aprendeu com o papa Francisco três anos atrás quando o Pontífice veio ao Brasil: a Igreja não precisa de bispos personalidades. Afinal, não é com barulho que as plantas crescem, metaforiza o arcebispo, que está completando 25 anos de sua ordenação episcopal, 17 deles como arcebispo em Fortaleza. Dom José prefere desenvolver o pastoreio pelas comunidades, promovendo a evangelização pelas paróquias.

Nesta entrevista, ele conta sobre a mediação na greve da polícia cearense no fim do ano de 2011 e a frase que acredita ter mudado o rumo das negociações. Descreve os quatro papas que atravessaram sua vida religiosa, desde a época de padre, e fala sobre a cassação do mandato da ex-presidente Dilma. Também comenta o processo de reabilitação de Padre Cícero. Aos 68 anos, o arcebispo revela: gosta de cozinhar e foi ele quem plantou quase todas as árvores do quintal da casa onde mora. E usa o WhatsApp para se comunicar com os outros bispos mundo afora (Jornalistas: Daniela Nogueira e Demitri Túlio, O Povo).

O POVO – Dos 25 anos de sua ordenação episcopal, o senhor está há quase 17 aqui. Que avaliação faz do que é ser Igreja em Fortaleza?

DOM JOSÉ ANTONIO – É muito difícil fazer avaliação de uma coisa tão grande. A gente pode dizer impressões gerais. Estou aqui desde 1999. No ano de 2003, a gente estava preparando o sesquicentenário da Diocese e fez uma retomada histórica de toda a caminhada da Igreja no Ceará, a partir da criação do bispado, o que era antes, o que se tornou depois. Essa visão nos deu uma compreensão de uma graça muito grande de Deus sobre a Igreja no Ceará. Começou a evangelização aqui por volta de 1600 e pouco. Em 1854, foi criado o Bispado e ainda era pequena a presença concreta da estrutura da Igreja no Ceará. Eram 36 do que hoje a gente chama de paróquias. As comunidades do interior no Ceará todo. Eram em forma de freguesia, como na linguagem portuguesa. Era a época do primeiro bispo. Aqui era a região mais distante do bispo, que estava em Olinda e Recife, ajudado às vezes pela presença de um missionário que vinha da Bahia. E aí começou a estruturar e a passar por uma história mais organizada de missão, evangelização e crescimento. Em 2015, celebramos os 100 anos da Arquidiocese, celebramos a existência da Igreja já multiplicada no Ceará. De um bispado, passou a nove bispados. De 36 freguesias, o que hoje nós temos é uma coisa extraordinária, em questão de 150 anos. E num crescimento cada vez mais rápido. Com um crescimento também de tamanho, de número de comunidade, de presença da Igreja, de atividade da Igreja e de vivência da religiosidade também muito forte.

OP – E como o senhor se vê no meio disso tudo?

DOM JOSÉ – O que eu vejo? Fui mandado a uma igreja com uma história riquíssima. De etapas diferentes, de situações diferentes, mas com uma história riquíssima. De uma vivência religiosa muito grande. O estado do Ceará é o segundo mais católico do Brasil. Mas, proporcionalmente, em número de pessoas, é o maior. Primeiro, é o Piauí. São números do IBGE e também foi feito levantamento da Igreja sobre a questão da mobilidade religiosa que a CNBB promoveu. Houve o crescimento de outras denominações nos últimos anos. Mas isso não diminuiu a vitalidade da igreja. Pelo contrário. A vitalidade da igreja é uma realidade muito nova, muito ativa.

OP – Algum impacto pelas condições socioeconômicas?

DOM JOSÉ – Acho que também. Por ser um clima de maior resistência, maior luta, isso pode ter ajudado no sentido de famílias serem mais apegadas à fé. A gente nota isso no mundo. Onde o bem-estar físico, material cresce muito, corre-se o risco de as pessoas perderem o sentido espiritual, se engolfarem no que é material e perderem o sentido espiritual. Isso é muito claro no Evangelho. Jesus disse muito bem: “Pai, eu te dou graças porque escondestes as coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos”. É uma questão de postura humana. A pessoa apegada, satisfeita do material se fecha ao espiritual. O Evangelho não é fechado a uma classe, mas é para pessoas que são abertas no coração para o espiritual.

OP – Fortaleza é uma Arquidiocese difícil?

DOM JOSÉ – Hoje em dia, é difícil em todo canto. Mas o que se torna difícil é que a gente, como Igreja, não consegue acompanhar toda a presença, a necessidade do povo, por causa do crescimento enorme populacional, social que existe. Um exemplo: o número de padres cresceu nos últimos anos. O número de paróquias cresceu nos últimos anos, mas a cidade e as exigências cresceram mais. Não cresceram na mesma medida. Fundei 58 Paróquias, 10 Áreas Pastorais.

OP – Isso é muito ou é pouco?

DOM JOSÉ – É bastante, é bastante. O que tem ajudado? O crescimento e o amadurecimento das comunidades e o número de padres. Sem pastores, você não consegue organizar uma paróquia, que é uma unidade de igreja. São cerca de 460 padres na Arquidiocese. É difícil dizer de quantos precisaria, porque não é questão só de quantidade. O campo da missão é da situação social, das necessidades. É uma resposta que se dá ao movimento da evangelização da igreja, chegar às pessoas, atingir as pessoas, envolvê-las na vida cristã. Isso daí faz com que haja a necessidade de pastores, coordenadores, não só padres, mas leigos que organizem a vida da comunidade.

Foto: Joca Deus é Pai - Arquidioc. de Fortaleza

Foto: Joca Deus é Pai – Arquidioc. de Fortaleza

OP – O senhor acha que a criação das paróquias tem sido o seu maior legado?

DOM JOSÉ – Não, não. São as necessidades da Igreja. Não é que eu tenha planejado: “ah, eu vou fazer paróquias”. As necessidades vão aparecendo e a gente vai seguindo. Dom Aloísio (Lorscheider, cardeal arcebispo de Fortaleza – 1973-1995) dizia uma coisa muito interessante a respeito de Fortaleza que a gente sempre lembra. Ele dizia: “A cidade nos engole”. É o crescimento que vai acontecendo.

OP – E como nasce essa necessidade?

DOM JOSÉ – Faço uma comparação familiar. Uma família nasce, pai e mãe, o casal vai tendo filhos, os filhos crescem, chega uma hora, o que acontece? Casam e fazem sua casa. Uma comunidade nasce pela pregação do Evangelho, pela sua própria vida, não só porque tem filhos, mas pelo seu testemunho, pela evangelização, e vai aumentando. Chega um momento, vai nascendo mais outra, mais outra, mais outra… para seguir, pastorear essa região, precisa se organizar na Igreja. Se há uma necessidade de acompanhamento, precisa ter uma estrutura de igreja que ligue o evangelho na união entre eles e com uma única grande família, que é a Igreja. A Igreja não é um grupinho separador, é uma família que faz uma caminhada conjunta. Aí nasce a necessidade de se organizar e nascer uma estrutura mínima de acompanhamento e evangelização. Já não pode ficar dependendo daquela da qual nasceu. Já cresceu tanto que agora precisa de um trabalho de acompanhamento próprio.

 OP – O senhor tem todos mapeados os desafios, o que precisa fazer nas comunidades?

DOM JOSÉ – Tenho, tenho. A gente não faz sozinho. A Arquidiocese é dividida em nove regiões. Cada região tem à frente um representante do bispo, um vigário episcopal. Temos um encontro de administração de pastoral todo mês. Todo o Conselho Episcopal. São nove mais os bispos, eu, mais os auxiliares, mais dois vigários gerais, mais o coordenador de pastoral. A região também tem uma estrutura menor e é acompanhada pelos leigos que lá trabalham. É um trabalho conjunto. Vou dizer assim: o bispo é um pouco maestro da orquestra, mas quem toca são os músicos. A igreja é assim: o papa é o maestro maior, mas ele trabalha com todo mundo. O grande milagre da Igreja é este: ela é fruto desta comunhão, desta união. Com todos os limites que isso tem. Por isso, vocês ficam admirados por eu ter isso na cabeça. Também fico admirado. Acabo conhecendo essa região toda mais do que gente que nasceu em Fortaleza e sempre morou aqui. De onde vem isso? Do modelo que o próprio Jesus deixou. Ele chamou 12 para estar com ele e enviá-los em missão. Esse esquema se multiplica na Igreja. É o DNA.

OP – O senhor se considera um bispo discreto?

DOM JOSÉ – Não é com barulho que se faz. Qual o barulho que faz uma floresta para crescer? As plantas não fazem barulho pra crescer, mas precisam de cuidado. Então, a gente procura trabalhar cuidando pra que elas cresçam. Há 15 dias, me convidaram para celebrar na última paróquia onde eu estava antes de ser nomeado bispo, em São Carlos (SP). Faz 25 anos que não estou lá. Apareceram amigos, padres, gente de todo canto, gente que eu casei, que eu batizei, que era criança, que hoje são avós… Fiquei admiradíssimo. Vieram dois padres novos e disseram: “Foi o senhor que nos batizou”. Ex-alunos meus, eu fui formador do seminário. Olha, Deus coloca a gente numa obra tão complexa e tão grande que não é nossa. Não foi meu planejamento nem minha capacidade, eu sou um colaborador. A imagem que me veio foi do meu pai, que era um agricultor. Ele sempre plantou, tinha verdadeira loucura por plantar, preparava mudas, sementes. E ele ia todo dia e jogava um pouco de semente na beira da estrada de uma barragem que tinha lá no interior, em Barra Bonita. E eu me lembrei dessa imagem. É assim que Deus usou a minha mão pra jogar a semente. E a força da semente não é quem joga. É a terra, é Deus quem faz crescer. É uma coisa admirável.

 OP – Dom Edmilson (da Cruz, bispo emérito de Limoeiro do Norte) nos disse que o senhor teve uma atuação marcante na greve dos policiais, aqui, no Ceará, em 2011. Mas o senhor trabalhou nos bastidores. O que o senhor fez ali?

DOM JOSÉ – Eles me tiraram da cama, já era de noite, já estava começando a dormir. Toca o telefone e dom Edmilson muito eufórico: “Senhor arcebispo, o senhor pode nos atender?” E eles vieram. O comando de greve e ele vieram conversar comigo, pedindo uma mediação de uma conversa com o governador, para tratar das reivindicações que eles estavam fazendo, mas também para ajudar a resolver um impasse porque constitucionalmente os militares não podem fazer greve. E ali a solução era simplesmente censura em cima deles, eles teriam que pagar pelo ato ilegal que eles fizeram, e estaria envolvendo muitas paixões e havia mulheres e crianças envolvidas. Era muito delicado. Conversamos, eles expuseram a situação. E pediram que fôssemos mediadores. Pedimos uma conversa com o então governador Cid Gomes, que nos atendeu muito bem. Havia outros secretários e um capitão do Exército, que havia vindo de Brasília pra ajudar na mediação, que, por sinal, era um homem de muito bom senso. As coisas estavam muito tensas, muito tensas. O nosso pedido era que tivessem calma, dialogassem e procurassem resolver. “Mas eles estão contra a lei, a lei diz isso e isso”. “Mas as nossas exigências são essas e a gente não dobra”. E ninguém cedia. Foi uma conversa longa. Quando não tinha mais nem o que falar, eu usei uma frase que eu tinha ouvido e tinha me ajudado muito. “É preferível a gente dobrar em vez de quebrar.” Quem disse isso foi Chiara Lubich, uma carismática fundadora da obra Focolares da Igreja, que acreditava na fraternidade entre as pessoas, em superar as divisões, buscando o bem comum. Então, me veio essa frase. Ela dizia essa frase nos momentos de conflitos. Saber dobrar pra não quebrar. Eu disse isso e deve ter marcado o governador, porque, a partir desse momento, a situação mudou. Começaram a sentar e conversar. Foi só isso o que fiz. Mais nada. Nenhum milagre. Fui dizer uma coisa de coração. Há valores que são maiores do que outros. Mas o valor da vida humana é maior até do que o valor de uma lei constitucional.

OP – Esse é um exemplo da Igreja em saída que o papa Francisco sempre prega?

DOM JOSÉ – Acredito que sim. Porque o papel da Igreja não é substituir o Estado nem a sociedade nem ninguém. A Igreja tem sua missão própria, voltada para a pessoa humana, para o bem comum, isso nos interessa. Isso é Evangelho. Que os filhos de Deus se entendam, se respeitem e que todos possam ser respeitados como filhos de Deus. Isso é papel de Deus. A igreja é isenta, não é porque fica em cima do muro. Pelo contrário. É porque ela quer estar dos dois lados do muro.

OP – Hoje o senhor conversa com as autoridades do Estado? Tem abertura pra isso?

DOM JOSÉ – Sim, conversamos. Têm tido várias aberturas pra isso. É sempre uma coisa de igreja, não é uma coisa minha. E o papa disse a nós, bispos, no Rio de Janeiro, na Jornada Mundial da Juventude: “O Brasil não precisa de bispos que sejam personalidades. Precisa que sejam unidos, com um testemunho comum”. Não é questão de destacar uma personalidade, mas que a gente se una e faça o melhor possível. Por exemplo, nós, bispos, nos reunimos antes da última eleição pra governador do Estado. E propusemos uma conversa com todos os candidatos. Foi feito esse encontro. E ali se quis ouvir cada um, e os bispos colocaram os grandes sofrimentos que percebemos no meio do povo em todas as regiões em que estamos. Quando aconteceu a eleição e foi eleito o governador Camilo Santana, quisemos um retorno com ele pra conversar sobre aquilo que a gente tinha proposto. Ele mesmo propôs que ali não fosse o único encontro com os bispos, mas que pudesse ter outros, mas encontros de trabalho sobre temas e assuntos importantes que nós pudéssemos ajudar o Governo do Estado. E começamos a fazer. Ano passado tivemos três encontros com ele. Os bispos todos, sobre semiárido e diversas outras temáticas. Ele chamou alguns secretários. Tem sido muito produtivo. No último, que foi sobre saneamento básico, ele assinou, na nossa frente, três leis estaduais sobre a questão do saneamento básico.

OP – Nos seus 25 anos como bispo, o senhor foi atravessado por três papas. O senhor pode traçar um perfil de cada um deles?

DOM JOSÉ – Como padre, foram quatro papas. Ainda teve Paulo VI. Como bispo, três – João Paulo II, que me nomeou bispo, Bento XVI e Francisco. É muito injusto comparar e dizer: “esse é mais que aquele”. A cada um, Deus dá um dom diferente. São personalidades diferentes e Deus respeita, porque Ele é o criador. Quanto aos papas atuais, quanto bem para a Igreja e para a humanidade fez João Paulo II do jeito dele. Quanto bem fez para a humanidade e para Igreja o papa Bento XVI. É um teólogo, um homem da doutrina, reto, lúcido. Fez muita coisa. Como pessoa, muito simples. Eu brincava com os bispos agora dizendo que o papa João Paulo II não era tímido, até pelo enfrentamento com o público. Ele tinha uma assinatura desenvolta. Se você pegar a assinatura de Bento XVI, parece um mosquitinho. Se você pegar a assinatura do papa Francisco, parece um mosquitinho. Como pessoas, podem ser tímidas por natureza, mas têm valores. Têm dons e Deus potencializa esses dons para que possam exercer a missão que Deus dá. Então, você não pode esperar que dom José Antonio seja um artista e seja um grande pop. Não vai ser. (risos) O temperamento dele não é esse.

OP – Não dá uma impressão de que há uma revolução com o papa Francisco?

DOM JOSÉ – Cada geração vive sua geração. O papa João Paulo II, e eu vivi o começo da juventude do pontificado dele, foi revolucionário. Barbaridade! Socialmente, ele influenciou na queda do muro de Berlim, na queda do comunismo, ele fez um trabalho enorme, não que ele foi politicamente fazer aquilo, mas a presença dele, o carisma dele, orientação de doutrina, de humanidade, o que ele nas encíclicas, nas viagens dele… o que ele viajou não está escrito! Teve contato direto com o povo! Coisa que Paulo VI tinha começado, tinha ido a África. Ele esteve na ONU. Há uma resposta para cada momento. E isso não tira o valor da novidade do que a gente vê agora. Pelo contrário. É um momento inspirador. Deus dá graça para o momento, na necessidade do momento. Cada revolução tem sua época. Papa Francisco diz: “Nós devemos estar preparados para as novidades de Deus.” Porque as novidades de Deus não são como a gente imagina.

OP – Dom José, houve misericórdia no processo de cassação da ex-presidente Dilma?

DOM JOSÉ – Sabe o que é triste? Que não se faça uma justiça isenta. Não digo da Dilma, mas de todo mundo. Porque, por trás, não existe só o desejo da justiça. Existe a manipulação política para se aproveitar de certas coisas, por interesses. É lógico que a justiça tem que ser feita, mas uma justiça que não seja vingativa, que não seja para tirar proveito. Felizmente, o grande movimento que a gente vê no Brasil hoje na questão da política é que está acontecendo uma coisa que não acontecia, e isso é bom. Que não se negue a responsabilidade. Mas que não seja usada para jogo político de interesse de cá e de lá. Isso é horrível. Quem julga? Está julgando porque quer o bem comum? Está sendo transparente? Ou depois vai prestar conta da mesma coisa?

OP – O senhor acha que Padre Cícero vai passar pelo processo de santificação?

DOM JOSÉ – Não posso dizer que se faça o processo. Nada impede que, no momento certo, se faça. O processo que está sendo feito é o de reabilitação, e passos grandes foram dados. Iniciado pelo Ratzinger, e eu estava lá, fui com dom Fernando (Panico, bispo do Crato), entregar a ele pessoalmente a documentação. E depois como papa, estava atento àquilo que estava acontecendo. Não é uma coisa pessoal. A canonização não vem de um desejo emocional. Vem de um estudo da vida da pessoa, dos escritos, dos ensinamentos e dos testemunhos. A Igreja, quando espera por milagres comprovados, é para não ser superficial naquilo que faz.

Foto: Joca Deus é Pai - Arquidioc. de Fortaleza

Foto: Joca Deus é Pai – Arquidioc. de Fortaleza

OP – Mas o senhor acha que a Igreja foi injusta com o Padre Cícero?

DOM JOSÉ – Não posso dizer nada. Sinceramente, eu conheço os dois lados da história, pelas opiniões que a gente lê. São duas coisas que pesam muito na balança.

OP – E quando o papa faz essa abertura para a reabilitação, ele sinaliza para quê?

DOM JOSÉ – Para o direito que toda pessoa, que todo cristão tem. Para a sua defesa e para a sua dignidade. Em todo julgamento existe uma acusação, mas existe também uma defesa. A questão da misericórdia não nega a justiça. Nestes dias, o papa Francisco dizia isso. Em Deus, a justiça e a misericórdia são plenas. Não existe misericórdia injusta. E não existe justiça que não seja misericordiosa. Se ela não usa de misericórdia, ela não é justiça.

OP – Quando o senhor não está no seu trabalho de pastoreio, o que o senhor faz? Dom Edmilson falou que o senhor é um bom cozinheiro.

DOM JOSÉ – Eu cozinho. Não é coisa requintada. É coisa de comida caseira. Ninguém é bom juiz em causa própria. Que os outros digam. (risos)

OP – O senhor usa as redes sociais?

DOM JOSÉ – Hoje mesmo fizemos um grupo pelo WhatsApp dos bispos daqui. (risos) Facilita a conversa. Temos um grupo brasileiro e um grupo internacional.

OP – O senhor deve ter as suas orações de todos os dias. Mas há alguma específica a que o senhor recorre em alguma situação?

DOM JOSÉ – Ah, tem. É uma muito simples. Seja de manhã, quando acordo, seja de noite, quando vou dormir, seja diante de um problema. “Por ti, Jesus; por ti, Maria”. E muitas vezes a gente precisa fazer isso.

Deus dá graça para o momento, na necessidade do momento. Papa Francisco diz: “Devemos estar preparados para as novidades de Deus.”

As plantas não fazem barulho pra crescer, mas precisam de cuidado. Então, a gente procura trabalhar cuidando pra que elas cresçam

Há valores que são maiores do que outros. Mas o valor da vida humana é maior até do que o valor de uma lei constitucional

Perfil

Dom José Antonio Aparecido Tosi Marques, 68, está completando 25 anos de ordenação episcopal e está há quase 17 como arcebispo de Fortaleza. Nasceuem 13 de maio em Jaú (SP). Dentre as iniciativas da sua administração episcopal da Igreja de Fortaleza, pode-se citar: assumiu, desde 2003, a realização da Caminhada com Maria, no dia 15 de agosto (dia de Nossa Senhora da Assunção, padroeira de Fortaleza); criou e manteve 10 Áreas Pastorais; criou 58 Paróquias; tem tido uma dedicação especial à formação dos seminaristas nos três seminários da Arquidiocese e na Faculdade Católica de Fortaleza, participando de encontros com os seminaristas; celebrou em 2015 o Ano Jubilar na Arquidiocese de Fortaleza como comemoração do seu centenário. Foi nomeado bispo auxiliar de Salvador em 1991 pelo papa João Paulo II.

Fonte: Jornal O Povo (Entrevista PÁGINAS AZUIS), Fortaleza, 17 de outubro de 2016 .