A cruz, a foice e o martelo: uma questão de simbologia

Papa e a Cruz
Muito tem se falado e escrito a respeito do “presente” um tanto inusitado do presidente boliviano Evo Morales ao Papa Francisco. Uma enxovalhada de opiniões dividiu-se a respeito da “lembrança” dada ao bispo de Roma, alguns retratam que esse crucifixo feito com um martelo e uma foice é uma afronta ao líder religioso e outros, dizem que se trata de uma obra de arte da imagem de Jesus crucificado.

É evidente que historicamente o “martelo” e a “cruz” estão vinculados a luta revolucionária comunista e que essa ideologia sofreu sanções e desagravos por parte de Pio XI, na encíclica Divinis Redenptoris. Contudo, também é sintomático que se fosse um anel de ouro cravejado com diamantes não causaria tanto furor, mesmo que o possível presente contradissesse a todo discurso de pobreza feito por Francisco. Vale ter presente que, se por um lado a Igreja condenou o comunismo, por outro ela também condena o capitalismo… Parece-me que a discussão não deve centrar-se nesse ponto, mas na sua dimensão simbólica.

O próprio conceito grego de símbolo (symbolo) é o de ligar, de ser imagem representativa de uma ideia, ao passo que algo “sim-bólico” é em essência aquilo que une, que congrega, que converge. E os símbolos são em si mesmos polissêmicos, isto é, carregam uma gama de significados que variam de acordo com o ser que o descreve. Assim, o que para mim pode ser “simbólico” (unir), para o outro pode de ser considerado “dia-bolico”, algo que causa ruptura, divisão, quebra.

Os estudos historiográficos desenvolvidos demonstram que a descrição é algo tão subjetiva que mesmo o vencedor ao tratar com desdém o vencido, não relata a sua superioridade, mas, aquilo que o atemorizava no adversário. Assim, que para nossa discussão é elementar saber que: o que Claudia fala acerca de Maria contém mais informações de Cláudia que acerca de Maria.

A histeria nas redes sociais revelam concepções tardias de temas atuais e subverter a ordem que engloba o símbolo e seu contexto. Tal escultura foi construída pelo sacerdote jesuíta Espinal, torturado e assassinado por paramilitares em 1980 e o que parece ter sido desprezado pela maioria, é que num momento anterior a entrega da obra, Francisco, houvera feito uma oração no local onde o sacerdote foi encontrado morto. Seu “(con)texto” é atropelado pela simbólica imagem do martelo e da foice tidos como “comunistas”, como se fosse possível que uma determinada ideologia conseguisse abarcar toda carga representativa desses objetos.

Creio que os cristãos “ofendidos” devem repensar a fortaleza bíblica que contém esses símbolos: a foice, o martelo e o Cristo crucificado demonstram o que há de mais sensível na mensagem bíblica, o trabalho que dignifica o ser humano, a fé que alimenta a vida e a ira profética que se insurge contra a injustiça feita aos pobres. Assim, a meu ver, devem fugir dos “escândalos cibernéticos” e modificarem atitudes cínicas que são travestidas de religiosas: “Eles enganam o meu povo dizendo que tudo vai bem quando nada vai bem. Pretendem esconder as rachaduras na parede com uma mão de cal. (Ezequiel, 13.10).

João facundoJOÃO FACUNDO, Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica de Fortaleza – FCF e estudante de história na Universidade Estadual do Ceará – UECE.

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Espiritualidade), Fortaleza/CE, 19 de julho de 2015.