A espiritualidade do cotidiano

 “Quem não se sente incomodado diante da overdose de curas e exorcismos que vem invadindo os meios de comunicação?”

 Pe. Almir Magalhães, Diretor Geral e Professor na Faculdade Católica de Fortaleza

Em primeiro lugar o que se entende por “espiritualidade do cotidiano”? De maneira mais compreensível é um jeito de seguir a Jesus Cristo e sua proposta de vida na qual as pessoas estão atentas aos sinais dos tempos, aos apelos que brotam da vida no dia a dia. Pode-se dizer também que um grande fundamento ou inspiração para viver a espiritualidade cristã, no cotidiano, encontra-se nas parábolas que apelam para a vigilância (Lc. 12, 35-40 – e Mt. 25, 1- 13 – parábola das dez virgens), ou seja, estar atentos, vigilantes para associar nossos comportamentos e atitudes confrontando com o Evangelho.

Uma outra indicação mais prática pode ser traduzida numa frase digamos assim apelativa, esclarecedora: “Diga-me como é um dia seu e eu vou dizer se vale a pena você continuar acreditando naquilo que você acredita”. Nós cristãos, através de nosso batismo, adquirimos uma identidade e ao mesmo tempo nos tornamos membros da comunidade eclesial, com responsabilidades no âmbito da atividade missionária e sobretudo, a partir daí e num processo formativo, irmos compreendendo, gradual e progressivamente, o que significa a adesão feita. Neste processo vamos nos tornando discípulos e seguidores do mestre, orientando a própria vida de acordo com aquilo que dá coerência com a adesão batismal.

A pergunta que fica é: diante de uma sociedade secularizada, da relativização da ética e da moral, do horizonte do consumo onde tudo vira mercadoria, do individualismo que beira ao narcisismo, de uma religiosidade pós-moderna centrada no intimismo, da indiferença com relação às questões sociais e ao outro (neste sentido vale a pena ler e aprofundar o 4º capítulo da Exortação Apostólica a alegria do evangelho do Papa Francisco – a dimensão social da evangelização), fatores que geram impactos enormes na vida das pessoas que por natureza buscam sempre o mais fácil, como absorver este exigente desafio?

 O Pastoralista Joel Amado, num artigo publicado no livro A Espiritualidade Cristã em tempos de mudanças – contribuições teológico-pastorais, Vozes, 2009, assim se expressou sobre o assunto: “Quem, em sã consciência, não se sente no mínimo incomodado diante da overdose de curas e exorcismos que vem invadindo os meios de comunicação, em especial as televisões abertas em determinadas horas do dia e da noite? Como não se angustiar quando as celebrações do mistério eucarístico acabam sendo valorizadas mais pela quantidade de palmas, efeitos luminosos e lágrimas vertidas”? (pág. 18). É claro que o bombardeamento em forma de espetacularização vai minando as mentes das pessoas, aprovam-nas como agradáveis, “foi uma bênção” e reduzem o compromisso batismal a isto; Ora, o trabalho pela construção do Reinado de Deus, para que ele vá se realizando neste mundo em nossa sociedade é fundamental para a espiritualidade cristã e que este projeto tem como luz a humanização das pessoas, ou seja, na nossa atividade pastoral-missionária, como se empenhar para que nos ambientes que frequentamos, nas paróquias e áreas pastorais onde vivemos, os apelos de Deus sejam discernidos individual e comunitariamente e projetem comportamentos, atitudes que objetivem respaldar dignidade a quem não tem.

A reviravolta, a conversão individual e pastoral que devem ser dadas não tem outro caminho a não ser a ideia da importância que o outro tem na nossa vida; afinal de contas tudo se resume no amor a Deus e ao próximo. Tudo indica que o primeiro aspecto só aparentemente pode estar sendo bem cumprido; ora, se não se dá a devida importância ao outro que passa necessidade, ao outro concreto, que você conhece, que mora na sua mesma comunidade e se passa ao largo sem preocupação com o que acontece como na parábola do Bom Samaritano?

Para finalizar, caro leitor, reflita sobre como é o seu dia, na relação com a família, filhos entre si, esposo e esposa, presença comunitária visando a humanização das relações. Reflita e dialogue consigo mesmo se a pessoa na qual você acredita está motivando o seu dia a dia e se vale a pena realmente continuar acreditando nele. Boa reflexão.

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Espiritualidade), Fortaleza, 16 de fevereiro de 2014.